Filmes das décadas de 30, 50 e 80 têm sofrido edições e cancelamentos para os públicos atuais. Mas ‘esquecer’ ajuda?


Filmes são um produto de seu tempo e seu povo. Quando se acompanha uma obra, podemos aprender com suas visões de presente e futuro, ou com seus erros claros. Muitas vezes, não é só entretenimento. Então nada mais natural do que um filme representar ou criticar aquilo que aquele tempo considera correto e aceitável, e a indústria do cinema responder à isso. O Oscar mesmo, repetidamente acusado de ser demasiadamente americano, chauvinista e pouco diverso, teve que se dobrar aos apelos dos tempos que resultaram em reconhecer filmes como o drama “Moonlight” (2016), de ser criticado por não valorizar “Infiltrado Na Klan” (2019) e, em 2020, coroar o sul-coreano “Parasita” (2020) como melhor filme. É a crítica que faz o mundo evoluir, reconhecer suas mazelas e progredir como sociedade.

Parasita (2020). Filme sul-coreano tornou-se o primeiro não-inglês a ser considerado melhor filme pela academia, após anos de críticas às escolhas.

Mas para evoluir, precisamos de exemplos, e exemplos nos fazem apontar dedos para obras do passado. E os estúdios não querem ter suas obras apontadas como ofensivas. Não é bondade, é mercadológico. Se eu tenho mais ou menos obras questionáveis, eu posso ser acusado (com os números contra mim) que eu sou mais ou menos racista que outra empresa, por exemplo.

E em tempos de streaming, qual foi o contorno que os grandes estúdios tomaram? Reeditar os filmes. Cenas de nudez, racismo ou violência podem ser retiradas das obras originais. Assim, o filme pode ainda ser vendido como um “clássico” no seu acervo sem o risco de ser questionado por seu conteúdo.

O problema de acomodar um filme à história recente é justamente esconder a história. É o tiro que pode sair pela culatra. Quando se esconde o contexto, uma destas versões repaginadas se tornam as únicas cópias de seus filmes e quem vê esquece que algo considerado injusto aconteceu. E quem não conhece a história, está fadado a repeti-la. Quem não tem exemplo do erro, tende a realizar a mesma coisa.

“Demolidor” (1996). Nele, a sociedade que desconhecia a violência e sumiu com partes da história também não conhecia mais como reagir, e precisou “descongelar” um Stallone.

As reedições vêm sido utilizadas em larga escala, em TV e plataformas digitais. Praticamente todas as plataformas digitais já passaram por alguma denúncia de edição digital recente. A que reacendeu a conversa no momento desta postagem envolveu a Warner Bros.

“E o Vento Levou” x HBO MAX

A Warner retirou do acervo da HBO Max, sua plataforma de streaming, a versão de “E O Vento Levou” (1939), um dos maiores filmes já realizados por Hollywood em toda história. A retirada ocorreu após protestos do roteirista John Ridley (“12 anos de escravidão”), que afirmou que “E o Vento Levou” “não fica apenas aquém da representação, mas ignora os horrores da escravidão e perpetua alguns dos estereótipos mais dolorosos das pessoas de cor”.

A Warner negou que iria editá-lo, mas removeu o filme do acervo. “fazer isto seria como dizer que estes preconceitos nunca existiram”, afirmou um porta-voz da companhia. A defesa do estúdio é a mesma utilizada com os cartoons dos Looney Tunes (1939 – 1969), que apesar de aclamados, contém conteúdos questionáveis para crianças de hoje, como armas, bebidas, violência e preconceitos. Mas ao contrário de “Tom & Jerry”, que determinados episódios simplesmente desapareceram, o que foi feito com os Looney Tunes foi distribuir os DVD’s com avisos pelo mundo sobre seus conteúdos.

“E o Vento Levou” (1939)

O Poderoso Chefão x Paramount

A Paramount Channel recentemente exibiu “O Poderoso Chefão” (1972), um clássico inegável, com uma censura à cena do casamento de Michael Corleone (Al Pacino). Mesmo sendo exibido de madrugada, o canal fez uma edição à cena em que o mafioso casa com Apollonia (Simonetta Stefanelli), ocultando os seios da atriz na cena das núpcias.

E não é o primerio caso. Em uma das cenas mais famosas, onde as chamadas “reunião das cinco famílias” discutem se vão vender drogas ou não, o filme possui uma modificação para o público brasileiro que esconde o racismo claro na cena. Na reunião onde os gângsters discutem se vão vender drogas ou não, a fala original de um deles diz que só desejava vender aos negros por que “eles são animais” e por isso deveriam “perder suas almas”.

Mas quem vê a cena dublada, pode pensar que o personagem está até preocupado com o negro. Isto porque a mesma cena foi traduzida para “eles estão desempregados mesmo”.

Mesmo que se alegue qualquer boa-intenção neste caso, é uma modificação que fica sem sentido em um filme. Ora, uma família de gângsters italianos da década de 40 não teria qualquer razão para medir palavras em uma discussão sobre venda de drogas. E esta “alteração” aparemente benéfica se perde à medida que o filme tem tantas outras falas que passam sem modificação igual e podem são claramente machistas (vide a cena onde Don Corelone diz “Mulheres e crianças podem ser descuidadas, homens não”).

De Volta Para o Futuro x Netflix

Se os casos anteriores têm motivos para análise, chegamos a dois casos aqui onde isto foi levado ao extremo: Recentemente foi a vez da Netflix cair na polêmica das reedições. Um usuário acusou a plataforma de ter uma edição de “De volta Para o Futuro 2” (1989) que modificou a revista encontrada por Marty McFly (Michael J, Fox). O motivo? Ele pega uma revista de conteúdo adulto ao invés daquela de esportes que estava procurando.

E a Disney foi igualmente acusada no lançamento da Disney +, a sua plataforma de filmes. Usuários relataram que a versão de “Splash – Uma Sereia em Minha vida” (1984) foi modificada pra dar mais cabelo digital à Daryl Hanna e esconder um quadro que mostra sua nádega no filme de 1984. Tanto no caso da Disney quanto na Netflix, as “gambiarras” foram tachadas de “ridículas” por alguns e “desnecessárias por outros. Mas certamente tomadas pelo mesmo gatilho.

Censurar ou educar?

Edições do que entra ou sai de um filme vão continuar existindo, são parte do processo criativo. Mas as reedições para borrar os originais podem trazer um problema novo ao invés de corrigir um antigo. Podemos aprender com exemplos se os exemplos estão ali para serem vistos, e é justamente onde mora o perigo em sumir com a história.

A criação em todo mundo precisa sim ser mais inclusiva e mais respeitosa, e precisa continuar a ouvir os clamores de quem não aguenta mais ser deixado à margem da história. Mas se não houver a história pra se envergonhar, não tem o que se pedir mudanças. E as distribuições de filmes só andam com a jurisprudência e clamores. Brincar de alterar o passado pode nos colocar em “bolhas” de um universo perfeito, um universo que jamais existiu e só ajuda a própria Hollywood a continuar como se nada contecesse, e que, curiosamente, tenta respeitar os de hoje “passando pano” nos de ontem. Paradoxalmente, isto pode ofender duas vezes mais aos desrespeitados.

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