Crítica: AmarElo – É tudo pra ontem

Crítica: AmarElo – É tudo pra ontem
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Desde sua gênese lá no samba e passando pelso diversos nomes e grupos que marcaram, o rap nacional sempre foi uma forma de contestação da sociedade. Racionais MCs, GOG, Facção Central e vem até os dias de hoje com diversos expoentes de diversos lugares do Brasil. 

Há de se lembrar do ano de 1999 e do clipe de “Isso aqui é uma guerra”, do Facção Central. A música foi retirada do ar e os autores foram processados por apologia ao crime. Como resposta, o álbum seguinte veio com “A Guerra Não Vai Acabar”, com um refrão que diz “Aí promotor o pesadelo voltou, censurou o clipe mas a guerra não acabou” e segue com diversos dados sobre a violência no Brasil. 

Ainda falando sobre essa característica do Rap, lembramos do reconhecido como um dos maiores (para muitos o maior) grupo de rap do Brasil, Racionais Mcs, que sempre trouxe nas suas letras uma mistura de poesia e denúncia social. Temos neles Capítulo 4 Versículo 3, apresentando estatísticas da violência e tratativa da polícia na periferia. “60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial” ; “de cada 4 pessoas mortas pela polícia, 3 são negras”… E a música vai nesse caminho de refletir as desigualdades sociais nas periferias de São Paulo. 

“Emicida: AmarElo – É tudo pra ontem” documenta o show que Emicida fez no Teatro Municipal de São Paulo, todas as motivações, a sua história e um pouco da escolha de cada música e cada participação especial no show. Mantendo a tradição do gênero musical, ouvimos ele narrar acontecimentos históricos e fazer denúncias de situações e fatos que ocorreram e tem impacto até hoje na forma do racismo estrutural. Mostrando figuras que foram sumariamente apagadas da história, mesmo tendo uma grande importância para a construção da cidade e da cultura brasileira. 

O documentário e o show de Emicida têm uma importância gigantesca. Primeiro pelo documentário suscitar diversos debates acerca de questões fundamentais que ainda hoje são necessárias para a nossa sociedade, como o resgate histórico de figuras importantíssimas para a nossa cultura e para a construção da sociedade como conhecemos hoje e não tiveram o crédito que merecem. Por outro lado, por colocar na prática o discurso de que há a necessidade de se ocupar espaços, colocando pessoas que nunca haviam sequer pisado no Teatro Municipal e agora estão assistindo a um show onde os protagonistas são eles mesmos. 

Emicida conseguiu a proeza de juntar o que há de melhor na cultura brasileira e ainda debater questões estruturais da nossa sociedade, além de toda a aula de história que o documentário nos dá. E ainda termina tudo isso com falas de uma das figuras mais importantes dos últimos anos, a vereadora Marielle Franco que foi brutalmente assassinada no Rio de Janeiro. 

“AmarElo – É tudo pra ontem” é multifacetado: é  documentário, é poesia, é denúncia social, é história, e sobretudo, é rap. Esse é talvez um dos trabalhos cinematográficos mais importantes dos últimos anos. 

Euller Felix

Euller Felix

Cientista Social. Criador, editor e host do podcast Necronomiconversa.

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